O Projeto SCULP
SCULP é uma obra cinematográfica de Joaquim Pavão criada em torno das esculturas do acervo do Museu Internacional de Escultura Contemporânea – MIEC.
Em SCULP é construída uma narrativa distópica onde, num contexto de luta pela sobrevivência humana no planeta Terra, o livre arbítrio da maioria dos seres humanos é substituído pela “vontade correta” instituída por um pequeno grupo e comunicada a cada indivíduo por uma voz gerada num sistema algorítmico.

Um Projeto, dois objetos artísticos: SCULP_SONHOS | SCULP
Duas obras cinematográficas para fruir de modos distintos.
SCULP_SONHOS é o resultado de uma encomenda feita pelo MIEC, vocacionada para o público de museu; uma obra cinematográfica em exposição que pode ser vista integralmente, interrompida, interpolada ou iniciado a qualquer momento. Funcionará como um livro de poesia que se abre numa página qualquer e se lê trecho a trecho. Cada cena tem uma vida e uma força próprias e todas estão dispostas como células articuladas num universo distópico. Existem referências ao mundo ficcional que se propõe, pequenos diálogos e monólogos que sugerem mas não explicam. Aqui, mais importante do que a narrativa, é a sugestão, a inquietação com que se pretende provocar o espectador.

SCULP é uma longa-metragem a ser distribuída pelas salas de cinema nacionais e internacionais e outros canais de distribuição, com vista ao grande público. O filme narra a história dos habitantes de um sistema de sobrevivência que os humanos criam num contexto de catástrofe, onde o livre arbítrio é substituído pela universal “vontade correta”. Toda a cenografia do filme é composta pelas obras de acervo e os espaços do MIEC.

Produção
_Calendarização
2015-20 | Pré-produção do projeto SCULP.
2018 | Contratualização da obra SCULP_SONHOS com MIEC.
2019 | Rodagem, Edição e Pós-produção da obra SCULP_sonhos. Rodagem de partes da longa-metragem SCULP.

7/fevereiro/2020 | Estreia do filme SCULP_sonhos no MIEC.
2020-22 | Distribuição nacional e internacional da obra SCULP_SONHOS por museus e festivais de arte. Candidaturas a outros apoios para a finalização da longa-metragem SCULP.
Datas a definir | Conclusão, lançamento e distribuição da longa-metragem SCULP.

_Equipa
Joaquim Pavão – Realização | Prémios recentes, com o filme “Antes que a noite venha – falas de Antígona”: MMP’s Film Festival 2018; Vegas Movie Awards August 2019 (Best Indie Short, Best Editing); Falcon International Film Festival LONDON October 2018 (Best Director, Best Short Film); European Cinematography Awards Aug 2018 (Best Original Score); 21º Festival Internacional de Cinema de AVANCA (Best World Premier).

Óscar Flecha – Banda Sonora Original |Compositor, Professor e Guitarrista; Diretor do Festival Internacional de Guitarra de Santo Tirso.
Álvaro Moreira – Curadoria da obra SCULP_sonhos | Diretor do MIEC.

José Oliveira – Direção de Fotografia | Prémios recentes, com o filme “Antes que a noite venha – falas de Antígona”: AIP Best Cinematography (short) 2018; Vegas Movie Awards August 2019 (Best Cinematography); Falcon International Film Festival LONDON October 2018 (Best Cinematography); European Cinematography Awards Aug 2018 (Best Cinematography); Red Carpet Film Awards, NY (Best Cinematography).

Isabel Fernandes Pinto – Argumento e Interpretação | Prémios recentes, com o filme “Antes que a noite venha – falas de Antígona”: Vegas Movie Awards August 2019 (Best Actress); European Cinematography Awards Aug 2018 (Best Actress); Red Carpet Film Awards NY (Best Actress).

Tucha Martins – Figurinos | Prémios recentes, com o filme “Antes que a noite venha – falas de Antígona”: Vegas Movie Awards August 2019 (Best Costume Design).

Gil Moreira – Storyboard e Desenho Concetual | Arquiteto.

Tiago Vouga – Diretor de Produção | Produtor e Diretor de Cena.

António Costa Valente – Produtor Executivo | Diretor do Festival Internacional de Cinema de Avanca.

A equipa completa conta com mais de 120 pessoas, entre as quais atores (Catarina Gomes, Teresa Chaves, Rui Oliveira, Joel Sines, Rui Pena, Carlos Fragateiro; Maria Mata, Maria Avelãs), figurantes, técnicos, assistentes e alunos das turmas de confeção da MODATEX.
Processo Criativo

_Premissas para uma obra cinematográfica com sete esculturas / sete peças musicais
Mote: “Quem deixa de amar a forma original para amar o seu simulacro, ou imagem, a si próprio se odeia” (Iehudah Abrabanel, “Diálogos de Amor”)
Glosas: Nascer, Comer, Brincar, Construir, Contemplar, Procriar, Morrer.
A escultura é corpo, o corpo é escultura. O verbo não é movimento, o verbo é ação. O mundo que se cria através da ação é uma outra síntese. Elementos em amálgama formam uma outra síntese: Forma original.

_Para o filme-exposição SCULP_SONHOS
Talvez a escultura se defina pelos diálogos que estabelece com o envolvente. Por isso é necessário questionar, antes de mais, o que é a cidade e, com a cidade, o que são os montes, os “terrains vagues”, a construção dispersa, o território. Será toda esta amálgama pré-existente também conjunto escultórico? Serão os edifícios estátuas? Serão as ruas instalações? Serão as paisagens composições pictóricas? Serão as pessoas vestidas de determinada maneira, movendo-se de determinada maneira, usando determinados objetos, criações estéticas de si próprias? Se sim, as esculturas são apenas mais uma criação humana na cidade, iremos vê-las numa contracena improvisada, um jogo teatral sem protagonistas.
Se não, conferimos à escultura o protagonismo de obra de arte, em que a praça, o jardim ou a rua lhe são suporte e toda a restante envolvente lhe é cenário, tornando-a peça singular entre o anonimato coletivo. Dá vontade de parar o tempo. Olhar o edificado na contraluz que o torna vulto e desfaz as idiossincrasias das janelas e detalhes. Olhar a morfologia do gesto criativo contra o caos. A escultura enche o palco da cidade com o seu monólogo.
É então que surgem as pessoas, ouvintes. A peça interrompe o caminho quotidiano, atrapalha o passo, coloca questões, é impertinente, obriga a contornar.
Ocupar o espaço pressupõe alterações no tempo e, para que esta evidência não seja apenas um jogo de palavras, é preciso parar. Ter a coragem de interromper o percurso, fazer um desvio, atrasar a chegada. Dar à peça que monologa a escuta que a libertará de si própria. A escultura, como todos os seres, nasce para deixar de ser o que é. Por isso, a paragem já não é apenas uma vontade, é uma urgência. A obra que não é interpelada fica a gritar sozinha no meio da cidade. Só os corpos a salvam, em movimentos de contracena com cinco sentidos atentos, naquele diálogo intraduzível a que chamamos fruição.
Então a escultura passa a ser paisagem porque é cenário de um encontro. Passa a ser edifício e rua porque integra o esqueleto da cidade. Passa a ser gente porque dialoga. E é neste habitar que a peça existe, no tempo que lhe resta até à deterioração e ao olvido, viva porque iminentemente morta, forte porque perecível; afinal, é um ser de passagem como nós.

_ Sinopse para o projeto do Filme SCULP
Algures no futuro, a espécie humana está à beira da extinção, devido ao desenvolvimento de bactérias multi-resistentes, às alterações climáticas e a conflitos armados entre nações. Como recurso de sobrevivência, a tecnologia torna-se endémica à vida humana e tende a tomar o lugar do livre arbítrio. Toda a delimitação, controlo e posse de território é proibida. A ideia de nação é abolida em favor de um Estado totalitário e universal. Nesse Estado, um Sistema gerido através de algoritmos determina a função, as opções e as ações de cada indivíduo, controlando toda a sua existência social com vista ao prolongamento da vida humana, à sua reprodução e à manutenção do seu domínio sobre o planeta Terra.
Embora os pensamentos e emoções sejam também induzidos e manipulados pelo Sistema Algorítmico, o conhecimento da mente e a evolução tecnológica ainda não permitem um controlo absoluto sobre essa dimensão do indivíduo. É aí, ainda, que reside uma centelha de liberdade.
Para controlar essa potencial imprevisibilidade, o Sistema mantém um controlo apertado sobre todos os indivíduos, classificando aqueles que colocam em causa as orientações algorítmicas como Instáveis. Esses são submetidos a uma estreita vigilância e a vários procedimentos de manipulação mental. Após esse tratamento, caso persistam nas dúvidas que colocam, são convidados a desligar pacificamente do Sistema.
Para prevenir qualquer tipo de união entre os indivíduos que possa potenciar futuras rebeliões, está em curso um processo de abolição das relações emocionais e sexuais. Todos os novos embriões humanos serão obtidos em laboratório e a sua gestação será totalmente feita fora de útero, em incubadora.
Bel é uma mulher escondida dentro da vitrine onde vive. Funcionária de nível médio-alto, trabalha no departamento de triagem dos Instáveis para a saída. A aparência não lhe importa, mas é na aparência que desenha o equilíbrio que lhe permite continuar a viver. Está, aparentemente, bem.
No passado, viveu vários tipos de violência e nunca sublimou esse sofrimento nem fez dele força criativa. Alojou-se dentro dela uma dor, um incómodo, uma voz que ela procura calar.
O Sistema foi inicialmente, para ela, um porto seguro. Ajudou a construí-lo como uma trabalhadora braçal que não quer conhecer o desenho inteiro da obra. Não lhe interessa a sua arquitetura porque, intimamente, receia as suas fragilidades. Prefere não pensar que o “teto” pode ruir, mente-se a si própria.
Porque o Sistema ainda não controla totalmente a complexidade emocional dos indivíduos, não foi possível anestesiar completamente as suas emoções e a sua capacidade de empatia para com os outros. Em grande parte, é dessa capacidade que advêm os sofrimentos do passado.
Assim, ainda que discretamente, ela vive em permanente contradição psicológica na função que desempenha. Foi também esse um dos objetivos para a sua colocação naquele lugar: de tanto exercer a indiferença pelo outro, haveria de ganhá-la para si. Porém, na vigilância de que foi alvo, foram detetadas várias contradições, dúvidas e inconsistências. Essa tentativa de manipulação aplicada a Bel tinha falhado.
É nesse contexto de profunda infelicidade e solidão que Bel encontra Spes. Ele vem ter com ela num momento que em que ela está só, para a informar de que será o seu novo colega e acertar alguns pormenores sobre o trabalho.
Sem que eles compreendam porquê, o Sistema tem um corte geral e as suas ligações ao CEO (Controlo E Ordem) estão inativas temporariamente. Ambos percecionam essa liberdade, o que despoleta neles a capacidade humana de empatia e as pulsões sexuais. Essa experiência desperta neles emoções que irão desencadear diferentes sentimentos.
Quando o corte do Sistema é resolvido e ambos voltam a ser controlados pelo CEO, Spes leva Bel, adormecida, para a sua habitação.
A partir dessa experiência, o inconsciente de Bel começa a revelar-se-lhe de forma mais forte e incisiva. Todas as noites ela tem sonhos violentos e estranhos, que envolvem a libertação das pulsões aprisionadas. Consciente, ela não quer aceitar esse tumulto dentro dela e procura continuar com o seu quotidiano normal, dizendo para si própria que esses sonhos são passageiros e tentando acreditar que o relacionamento com Spes foi também um sonho. Porém, ela está grávida e prepara-se para fazer um aborto. Todas essas contradições levam-na a uma espécie de loucura em que deixa de destrinçar a verdade da mentira. Só os sonhos são reais, como representações da sua verdade inconsciente.
Bel é incapaz de tomar uma decisão para a sua vida. Mais uma vez, deixa-se conduzir pelo Sistema. Thyr, seu superior, convence-a a desligar. Quando Bel sai, é a primeira vez que olha para si própria e precisa de ser honesta para consigo.
Spes é um funcionário do Sistema mandatado para vigiar e pôr à prova os funcionários assinalados pela demonstração de dúvidas acerca do paradigma vigente.
Foi criado e educado por um homem sábio, que lhe forneceu segurança e conhecimento. Possui um conhecimento profundo sobre a psicologia e o comportamento do ser humano, validado pela sua experiência. Ao contrário de Bel, Spes cumpre as suas funções tendo sempre em vista a arquitetura global do sistema, para a qual ele quer contribuir.
O processo de trabalho de Spes passa por se dirigir ao indivíduo vigiado e, numa conversa, confrontá-lo com as suas dúvidas. Normalmente, através de uma manipulação emocional com o sentimento de culpa, o isolamento e o enfraquecimento psicológico do indivíduo, este acaba por desejar a libertação e solicitar a sua saída do Sistema de forma pacífica.
Com Bel, todo o processo estava destinado a ser o habitual, mas a quebra momentânea do sistema e o relacionamento que ambos tiveram causa-lhe um profundo transtorno emocional. Ele descobre que existe uma capacidade humana negligenciada pelo Sistema que pode ser a chave para a prossecução da sobrevivência da espécie: a empatia.
Para estar com ela, Spes faz-se passar por Instável, mas, na entrevista, a comunicação entre ambos é completamente toldada pela emoção descontrolada.
Spes decide então dirigir-se ao seu superior, Thyr, para desta vez o confrontar a ele com a questão de quem controla o sistema algorítmico e, se ninguém assume esse controlo e este é totalmente tecnológico, em que é que nos estaremos a transformar. Thyr, preconizando e defendendo o paradigma vigente, que permitiu a abolição das guerras e a sobrevivência face às epidemias, nega a importância destas questões e qualquer via alternativa. Spes sai do escritório convencido de que a espécie humana não poderá sobreviver se não resgatar a sua capacidade de empatia. Está determinado a encontrar de novo Bel e iniciar um processo de mudança, dentro do próprio Sistema.
*Texto escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990.

 

 

PROJETO SCULP – SONHOS

07 FEV 01 MAR