Creative (un)makings: disruptions in art/archaeology

6 de março a 14 de junho de 2020

Do ponto de vista das disciplinas culturais e académicas tradicionais, a Arte e a Arqueologia têm relações confortáveis: colaboração, co-inspiração, objetivos partilhados para o conhecimento avançado do comportamento e pensamento humano. A arte/arqueologia, uma nova prática transdisciplinar, fraturou essa perspetiva, sendo que a exposição Creative (un)makings traz, pela primeira vez, essa perturbação ao mundo dos museus. A arte/arqueologia argumenta que escrever e pensar acerca do passado deve ir além das barreiras comuns de ambas as disciplinas, e que o trabalho criativo deve substituir os textos escritos e palestras. A arte/arqueologia abre um novo espaço onde o trabalho criativo, o pensamento e o debate expandem em direções inesperadas, onde encontramos potenciais inovadores para os objetos do passado.

Creative (un)makings: disruptions in art/archaeology apresenta esta nova abordagem ao passado em três instalações provocadoras. A primeira (Releasing the Archive) apresenta fotografias e vídeos com o objetivo de virar do avesso os valores padrão que as coleções museológicas e institucionais usam para preservar os objetos e imagens históricos. A segunda instalação (Beyond Reconstruction) mostra uma matriz de fragmentos cerâmicos que resultaram da construção/desconstrução de uma figura; inclui, ainda, fotografias documentais dos trabalhos, realça os limites da reconstrução arqueológica e abre um espaço criativo mais além. A terceira instalação (Ineligible) emprega artefactos de uma escavação em São Francisco, utilizando-os como matéria-prima com o propósito de produzir novos trabalhos artísticos que estimulem os pensamentos dos visitantes dos museus acerca de assuntos políticos e sociais modernos, como os sem-abrigo ou a desigualdade salarial.

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Releasing the Archive

Em Releasing the Archive, Doug Bailey viola as regras normais às quais os museus, as universidades e as instituições culturais devem obedecer quando preservam e protegem objetos e imagens. A instalação é um registo da destruição feita por Bailey de mais de mil transparências guardadas numa coleção antropológica da universidade onde trabalha. O arquivo original incluía transparências de estudos eticamente questionáveis sobre etnia, sexualidade, dissecação animal e reprodução humana. Bailey acredita que cada pessoa capturada nas imagens está viva, mas encurralada no arquivo da sua instituição e nas próprias transparências. Como reação contra os estudos questionáveis e o encapsulamento das pessoas nas imagens, Bailey encharcou os diapositivos em oxicloreto de sódio. O resultado foi a libertação química das pessoas aprisionadas, assim como a criação de imagens assustadoramente poderosas. As fotografias na instalação mostram transparências antes e depois da libertação das pessoas encurraladas; os vídeos registam os momentos dessas libertações. O conjunto de imagens é deslumbrante: esteticamente bonito e uma violação dos padrões de cuidado dos curadores.

 

Curador

Álvaro Moreira

Museu Internacional de Escultura Contemporânea

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Beyond Reconstruction

Em Beyond Reconstruction, Sara Navarro começou com uma figura antropomórfica do Neolítico do Leste da Europa, removendo-o do seu contexto arqueológico. Neste trabalho, Navarro não está interessada na literatura científica acerca do artefacto. Em vez disso, a sua intenção era observar a figura, levando em consideração as suas características latentes: forma, escala e material. Mantendo a forma e o material (argila) inalterados, Sara Navarro ampliou drasticamente a figura, alterando radicalmente a escala do objeto. Na segunda fase do trabalho, o objeto ampliado foi sujeito a um processo de desconstrução: fraturando a figura em múltiplos fragmentos através de uma extensiva série de cortes do objeto. A instalação inclui o registo fotográfico destes processos, assim como o conjunto de fragmentos de argila que resultou do mesmo. Beyond Recostruction questiona as nossas premissas habituais sobre os processos de construção e de desconstrução, bem como as de impossibilidade de reconstrução.

 

Curador

Álvaro Moreira

Museu Internacional de Escultura Contemporânea

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Ineligible

Desde 2010-2012, os arqueólogos em São Francisco levaram a cabo escavações no centro da cidade para posterior construção de uma grande estação de autocarros e comboios. A escavação recuperou muitos milhares de artefactos. Enquanto estes foram alvo dos conjuntos de análises e das interpretações habituais, o artista/arqueólogo Doug Bailey conseguiu um grande número de objetos, o que lhe permitiu desenhar um projeto para testar os limites colaborativos entre os artistas e os arqueólogos. Em colaboração com a escultora Sara Navarro, Bailey enviou artefactos a artistas, arqueólogos e outros criadores. O requisito para as pessoas fazerem um trabalho criativo foi a sua utilização não como objetos históricos, mas como se fossem matérias-primas (como pigmento ou argila), redirecionando os materiais para a criação de novas obras de arte que estimulassem as perguntas e pensamentos dos visitantes acerca de assuntos políticos e sociais da sociedade contemporânea. Para as pessoas a trabalhar em São Francisco, esse assunto poderia ser os sem-abrigo ou a desigualdade salarial; para pessoas a trabalhar noutro lugar, diferentes questões locais, regionais ou nacionais poderiam ser mais relevantes (como por exemplo a posição dos imigrantes ou refugiados na sociedade). Ineligible é uma seleção do resultado dos trabalhos que foram realizados.

 

Curadores

Doug Bailey, Sara Navarro

 

Participantes

Thomas Andersson, Doug Bailey, Jéssica Burrinha, Simon Callery, João Castro Silva, Shaun Caton, Rui Gomes Coelho, Jim Cogswell, Tiago Costa and Daniel Freire Santos, Ilana Crispi, Patrik Elgström and Jenny Magnusson, Dov Ganchrow, Stefan Gant, Cornelius Holtorf with Martin Kunze, Alfredo González-Ruibal and Álvaro Minguito Palomares, Cheryl E. Leonard, Nicola Lidstone, Marko Marila and Tony Sikström, Alison McNulty, Daniel V. Melim, Colleen Morgan, Sara Navarro, Jana Sophia Nolle, Laurent Olivier, Luisa da Rocha, Filomena Rodrigues, Suvi Tuominen, Ruth M. Van Dyke, Valter Ventura, Vanessa Woods

 

Créditos Fotográficos

Shelter Nº. 365, Jana Sophia Nolle, 201

 

Creative (un)makings: disruptions in art/archaeology

International Conference | Conferência Internacional

March 7, 2020 | 7 de março 2020

International Museum of Contemporary Sculpture | Museu Internacional de Escultura Contemporânea

Organization | Organização

CMST | Museu Internacional de Escultura Contemporânea

Scientific Coordination | Coordenação Cientifica

Doug Bailey

Sara Navarro

 

Program | Programa

14:30

Art/Archaeology: Releasing the Archive and the Ineligible project

Doug Bailey

State University of San Francisco, USA | Universidade de São Francisco, EUA

This presentation describes the aims, objectives, and processes at the base of two of the installation series currently in exhibition at the MIEC: Releasing the Archive and Ineligible. Particular attention focuses on the ways that artists, archaeologists, and others are working in new, exciting, uncharted territories where art/archaeologists discard the standard requirements, expectations, and results of traditional archaeological work.

Esta apresentação descreve os alvos, objetivos e processos que estão na origem de duas das instalações em exibição no MIEC: Releasing the Archieve e Ineligible. O enfoque será a forma como os artistas, arqueólogos e outros se encontram a trabalhar em territórios novos, excitantes e desconhecidos, nos quais a arte/arqueologia descarta os requisitos, expectativas e resultados comuns do tradicional trabalho arqueológico.

 

15:00

Finding a foothold: strategies for creating with found objects

Dov Ganchrow

Bezalel Arts and Design Academy | Academia de Artes e Design de Bezalel, Israel

Many creative individuals make use of found objects when making something new; in design, in art, in craft and when improvising. A found object for this perspective will follow the definition of an object, usually man-made, and often purposely modified or manipulated in a way that elicits new meaning and reflection. Initiating a fresh creation when faced with a blank canvas or an everyday object can seem daunting if not outright intimidating. Where/how does one start? Strategies for overcoming this hurdle are often the focus on a specific characteristic of the found object such as material, structure, color, form, function, context, etc. This presentation will look at studio case-studies including the work done for Ineligible, to illustrate various points of entry when creating with found objects.

Muitos indivíduos criativos fazem uso de objetos encontrados quando produzem algo novo; no design, na arte, no artesanato ou na improvisação. Nesta perspetiva, um objeto encontrado seguirá a definição de um objeto, habitualmente feito pelo homem, e quase sempre propositadamente modificado ou manipulado de forma a incitar novo significado e reflexão. Iniciar uma nova criação quando confrontado com uma tela em branco ou um objeto do dia-a-dia pode ser assustador, senão mesmo completamente intimidatório. Onde/como começar? As estratégias para superar este obstáculo são frequentemente focar-se numa característica específica do objeto encontrado, tal como o material, a estrutura, a cor, a forma, a função, o contexto, etc. Esta apresentação terá o olhar direcionado para casos de estudo em estúdio, incluindo o trabalho feito para o Ineligible, de forma a ilustrar vários pontos de abordagem aquando da criação com objetos encontrados.

 

15:30

Contact paintings

Simon Callery

Indendent artist, UK | Artista Independente, Reino Unido

When Simon Callery works alongside archaeologists he wants the paintings he makes to be as direct a response as possible to the materiality of the site. Over the last few seasons working on Iron Age sites in Britain, Simon has been developing what he calls “contact paintings”. A strategy has evolved that all decisions and all actions necessary to make the painting are made on site and under the same conditions as the diggers. Simon would like to trace his path through photography, casting, studio-based painting, and drawing to this new way of working and the implications for contemporary landscape-based painting.

Quando Simon Callery trabalha em conjunto com arqueólogos, ele pretende que as suas pinturas sejam uma resposta o mais direta possível à materialidade do sítio. A trabalhar durante as últimas duas temporadas em sítios arqueológicos da Idade do Ferro na Grã-Bretanha, Simon tem vindo a desenvolver o que ele chama “pinturas de contacto”. Uma estratégia foi desenvolvida para que todas as decisões e todas as ações necessárias para a realização das pinturas sejam levadas a cabo no sítio e nas mesmas condições dos arqueólogos em escavação. Simon gostaria de traçar o seu caminho através da fotografia, da moldagem, da pintura em estúdio, e desenho nesta nova forma de trabalhar e as suas implicações na pintura contemporânea de paisagem.

 

16:00

We don’t break through the surface

Patrik Elgström and Jenny Magnusson

Independent artists, Sweden | Artistas Independentes, Suécia

Patrik Elgström and Jenny Magnusson discuss their contribution to Ineligible. They took the project “assignment” by handling and treating the assemblage they were given as if it were a plain box. They have not yet opened the assemblage; instead, they will use it as a surface for projections of their thoughts and ideas. How long is it possible to hold back the desire to open this box of archaeological artifacts? In a series of actions, Patrik and Jenny glue up images of the box in relation to architecture and on-going gentrification, in order to reread the urban space. By doing so, “they don’t break the surface.”

Patrik Elgström e Jenny Magnusson discutem a sua contribuição para Ineligible. Eles assumiram a “tarefa” manipulando e tratando o conjunto que receberam como se fosse uma caixa simples. Eles ainda não abriram a embalagem; em vez disso, usaram-na como superfície para projeções dos seus pensamentos e ideias. Quanto tempo é possível conter o desejo de abrir esta caixa de artefactos arqueológicos? Numa série de ações, Patrik e Jenny colam imagens da caixa em relação à arquitetura e à gentrificação em curso, com o objetivo de reler o espaço urbano. Ao fazer isso, “eles não irrompem a superfície”.

 

16:30

Collaborative bodies in the (un)making

Suvi Tuominen

University of the Arts Helsinki, Finland | Universidade de Artes de Helsínquia, Finlândia

The presentation discusses my durational live performance Audactiv and looks deeper into the (un)making of carnal, archaeological, and other material bodies. The performance explores how bodies co-create a live collage, and actively seeks ways to evoke the imagination of the spectators who encounter the piece. In this way, the performance challenges the conception of archaeological bodies (both human and inanimate) as static traces or representations of a lived past.

A apresentação discute a minha performance ao vivo Audactiv e analisa profundamente o (des)fazer de corpos carnais, arqueológicos e outros corpos materiais. A performance explora a forma como os corpos co-criam uma colagem ao vivo, e ativamente procura modos de evocar a imaginação dos espectadores que se deparam com a peça. Desta forma, a performance desafia o conceito de corpos arqueológicos (ambos humano e inanimado) como traços estáticos ou representações de um passado vivido.

 

17:30

Homelessness in the Living Room

Jana Sophia Nolle

Independent artist, USA/Germany | Artista Independente, EUA, Alemanha

How much is one’s home, whether a house or a tent, the determining factor for selecting one’s social group? What kind of materials would one gather to build a temporary home on the sidewalk if one ended up unhoused? The German visual artist, Jana Sophia Nolle, will address these and other questions as part of her presentation. Her art practice reflects a fascination with social change, inequality, and individuals caught up in sociopolitical transitions. Her most recent projects (Living Room, San Francisco, 2017/2018 and Shelter Nr. 365, 2019) focus on issues such as housing shortages, gentrification, and homelessness. Nolle will provide an overview about her work and methods.

Quão determinante é o lar de alguém, quer seja uma casa ou uma tenda, como fator de seleção do seu grupo social? Que tipo de materiais poderia alguém recolher para construir um lar temporário na berma da estrada se ficasse sem casa? A artista visual alemã, Jana Sophia Nolle, irá abordar essa e outras questões na sua apresentação. A sua prática artística reflete o fascínio com a mudança social, a desigualdade, e indivíduos que se encontrem em transições sociopolíticas. Os seus mais recentes projetos (Living Room, São Francisco, 2017/2018 e Shelter Nr. 365, 2019) focam-se em problemáticas como falta de habitação, gentrificação e sem-abrigo. Nolle irá providenciar uma visão geral acerca do seu trabalho e dos seus métodos.

 

18:00

On the aesthetic in art/archaeology

Marko Marila

University of Helsinki, Finland | Universidade de Helsínquia, Finlândia

This talk pertains to Marko Marila and Tony Sikström’s Ineligible exhibition piece The Hum and explores the aesthetic in the context of an art/archaeology. The concept of transduction is used to refer to an onto-epistemo-aesthetic process of pluralized interpretation in light of which art/archaeological objects are both representations and translations of the materials and processes which they repurpose. An aesthetic process on the one hand, transduction also pertains to the process of knowledge production and the role and relevance of uncertainty and speculation as valuable qualities of that process.

Esta apresentação diz respeito a The Hum, peça de Marko Marila e Tony Sikström, e explora a estética no contexto da arte/arqueologia. O conceito de transdução é usado para referir a um processo sobre-epistemo-estético de interpretações pluralizadas à luz das quais os objetos de arte/arqueologia são ambos representações e traduções dos materiais e processos que estes redirecionam. Um processo estético, por um lado, a transdução também se refere ao processo de produção de conhecimento e ao papel e relevância da incerteza e especulação como qualidades valiosas desse processo.

 

Inscrições gratuitas através de museus@cm-stirso.pt ou 252 830 410.

 

 

CREATIVE (UN)MAKINGS: DISRUPTIONS IN ART/ARCHEOLOGY

06 MAR 14 JUN