Residência Artística – De volta ao futuro

Curso de Mestrado em Cinema e Fotografia da Escola Superior de Media Artes e Design

19/Jul/2024
- 04/Ago/2024

Tal como as tecnologias se tornam obsoletas assim que as dominamos e as fotografias são evidências do passado no mesmo instante em que se fazem, a residência artística em Santo Tirso acabou quando ainda a estávamos a imaginar. A profundidade do trabalho que apresentamos é por isso a profundidade da vivência in loco e do estudo que lhe antecede. O nosso local de reunião foi o Colégio das Caldinhas, junto às Caldas da Saúde, na freguesia de Areias, foi aqui que vivemos dias e noites de calor em abril e onde despertamos para a importância de ouvir, das mais baixas às mais altas frequências e amplitudes sonoras, o que para operadores de um medium inerentemente visual pode ser da maior importância. Adicionamos o nosso próprio ruí­do e silêncios ao espaço, escutamos a história da diáspora dos Jesuí­tas e visitamos o museu que testemunha o seu comprometimento com a ciência e a educação. Mas isso foi nos momentos em que pudemos parar, entre km de viagens e km de feeds do WhatsApp para organizar encontros, produções, refeições, conversas, apresentações. Tudo o que foi preciso para que um grupo de garimpeiros(as) pudessem escavar os seus filões, cada um na sua direção, em sí­tios diferentes do concelho de Santo Tirso.
Chegou o momento de pesar os resultados das escavações e fazer as contas. Nas páginas do catálogo, cada corpo de trabalho surge tal como o seu autor o concebeu e ordenou sequencialmente, na relação com texto e outros elementos. Na exposição experimenta-se um processo de performance e curadoria que envolve os artistas e desafia o público. Trabalhamos a ideia de constelação de relações entre fotografias em vez de uma separação do trabalho de cada autor. Isto proporciona à partida uma diluição da sua voz individual, mas por outro lado configura uma democratização dos olhares e uma abertura às interpretações, envolvendo o espectador na sua descodificação. Invocamos o pensamento de Aby Warburg que emerge no Atlas Mnemosyne, para estabelecer (encontrar, provocar, experimentar) correlações de afinidade ou contradição, continuidade ou descontinuidade, entre imagens, tempos, lugares e pensamentos. Estas formas de dar a ver assumem uma outra condição do processo de aprendizagem da técnica fotográfica e da experiência de vida: o ato de criação implica sempre mimesis (imitação) e poiesis (invenção), por isso ao entendermos a publicação do trabalho como uma aproximação ao arquivo, porque permanecerá, e a exposição como uma performance in situ, além do olhar individual que se reconhece nos estilos que atravessam múltiplas fotografias, evidenciamos também as nossas referências culturais. As fotografias, como registo de instantes granulares num tempo contí­nuo, mesmo quando repetem ou mostram o que já conhecemos, acrescentam novo conhecimento, que se expande no confronto com o olhar do outro, mesmo que tudo permaneça eternamente em construção e o inacabamento seja uma das suas condições existenciais.


Cesário Alves, junho 2024

Inauguração