Hubert Damisch defendeu que a fotografia e o cinema revelaram-nos que “a arquitetura não pode ser considerada apenas como arte do espaço: é necessário criar espaço, tanto na sua prática como nos seus conceitos, para o tempo e o movimento”. A fotografia e a cinematografia são, assim, vistas como algo que rompe a distinção polarizada de Hegel entre as artes do espaço (arquitetura, escultura e pintura) e as artes do tempo (música e poesia). Para Hegel, a arquitetura era a arte mais incompleta porque, como observa Damisch, “é incapaz de expressar adequadamente o espiritual através do uso de materiais voltados sobretudo para obedecer às leis da gravidade”, enquanto a música “é considerada a arte “romântica” por excelência, porque lida com um material tão insubstancial quanto o som.” Apresentando a famosa metáfora de Friedrich Schelling de que a arquitetura nada mais é do que “música congelada”, Damisch questiona se devemos então definir a música como “arquitetura descongelada” e prossegue ligando esta noção às formas como o cinema e a fotografia podem revelar as relações entre a arquitetura e “a estrutura do tempo, a sua textura e, da mesma forma, a sua relação com o espaço”.
Damisch escreveu em resposta às fotografias a preto e branco de Jaqueline Salmon da Villa Noailles, de Robert Mallet-Stevens, em Hyères. Adaptamos esta ideia de “arquitetura descongelada” às nossas fotografias, em resposta às qualidades formais do Museu Internacional de Escultura e à reabilitação do Museu Municipal Abade Pedrosa de Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura. Esta série de fotografias utiliza deliberadamente a inversão de cores como estratégia para acentuar ainda mais as qualidades formais notavelmente inventivas e lúdicas inerentes à sua arquitetura. A inversão de cores realça os elementos intrínsecos da fotografia, afastando-a do real. Mas, ao mesmo tempo, também ajuda a tornar visíveis novos elementos da arquitetura a que responde. Aproxima-nos das qualidades sensoriais das suas formas materiais.